"O justo é como árvore plantada à beira de águas correntes, perto da Fonte. Porque está plantado assim, ele dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que faz prospera. Ele é teimosamente abençoado por Deus. A olhos vistos".

Divulgo, aqui no blog, algumas reflexões. Não são textos acabados e sempre estou aberto ao diálogo!

domingo, 5 de março de 2017

Providência Divina, Quaresma, Aranhas e outras coisinhas...


link da imagem:
http://ocatequista.com.br/atitude-catolica/item/18057-dizimo-partilha-de-amor-ou-negociata-com-deus
Faço umas poucas reflexões a partir de uma pregação que realizei ontem em um grupo ontem, aqui em Curitiba.

O tema que haviam me pedido era sobre a Providência Divina!

Eita tema ardiloso! Quando se fala nele, muitos associam imediatamente àquela tal "teologia da prosperidade", que estimula o "crente" a "exigir" de Deus a parte dele no "negócio", uma vez que o tal "crente" já "sacrificou"... (vamos lembrar que este verbo - "sacrificar" - é como um "código" secreto para não dizer abertamente dar dinheiro, cheque, entregar o salário, o carro, a mesada e sei lá mais o quê!). Lembrei-me também de um certo paxtô em um vídeo de janeiro agora, com o país enfrentando uma crise complexa, faz um desafio - "coloque tua vida no altar do Senhor. Faça este pacto com o Senhor. Vai ser um 'toma lá, dá cá'. Tome uma decisão drástica - ou é ou não é - se ficar só no lero-lero, no Senhor, Senhor, ó Deus, não adianta nada - e se não mudar a sua vida, amanhã vc vem aqui falar comigo e eu deixo de pregar o Evangelho" (não, não vou colocar o link aqui para não dar audiência..). Aí me dá uns dez tipos de medo de falar sobre o assunto e ser mal interpretado!!!

Aprendendo sobre a Providência Divina...


Bem, recorri ao Catecismo da Igreja Católica - que é fonte segura no meio deste turbilhão de "fontes", "frases", "ensinamentos" que estão por aí na internet.

E o Catecismo diz assim no seu parágrafo 321: "A Divina Providência são as disposições pelas quais Deus conduz com sabedoria e amor todas as criaturas até seu fim último". Este parágrafo resume alguns outros parágrafos anteriores que esclarecem o que é a Providência de Deus. Você pode ler na íntegra aqui.

E a explicação é que a Deus criou todas as coisas não completamente acabadas, mas em vias de perfeição (in status viae) - a caminho de uma perfeição última a ser concretizada. E mais, Deus deseja que nós, seus filhos amados, possamos ser instrumentos de aperfeiçoamento desta sua obra. De forma bastante poética, temos já no livro do Gênesis, no segundo capítulo, a ordem de Deus a Adão para que "cultivasse e guardasse o jardim do Éden" (cf. Gn 2,15).

Somos nós, portanto, que temos a belíssima tarefa (incumbida por Deus) de aperfeiçoar as realidades que nos cercam, em outras palavras, nos tornamos como que instrumentos da Providência Divina,

É claro, que todo o instrumento pode ou não ser eficaz para aquilo que foi criado. Tomando este exemplo para nós, quanto mais os cristãos se aproximarem de Deus, ouvirem sua voz e conhecerem a sua vontade, mais aptos, preparados, dispostos e disponíveis estarão para realizar os desígnios dele.

Sermão da Montanha

Então tomamos agora a passagem conhecidíssima do Evangelho de Mateus (dentro do texto que é conhecido como "Sermão da Montanha") capítulo 6, versículos de 25 a 34,  que você poderá ler aqui abaixo:




Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes?

Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?

Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam.
Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.
Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?
São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.
Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.
Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.

"O Pai celeste sabe que precisais de tudo isso", "todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo".

Estas frases ressaltam o cuidado amoroso de Deus para com os seus, para conosco. Este cuidado destas "disposições" retrata a Providência Divina.

Mas é importante ressaltarmos que o "tudo isso" e "estas coisas" que o Evangelho cita está referido às necessidades básicas do ser humano e que sim, devemos nos ocupar delas, porém não nos PREocuparmos - ocupamo-nos de forma antecipada.

Explico...

Precisamos de coisas materiais, precisamos de dinheiro para compramos estas coisas. Precisamos de emprego, precisamos vender, precisamos de casa, de abrigo, de segurança, de apoio, de saúde etc., etc. Não precisamos do luxo, do supérfluo, do desnecessário. Talvez tenhamos, talvez não. Mas ao acolhermos com gratidão o que temos, e controlando nossos desejos, vivermos mais felizes e menos angustiados.

O que o Evangelho nos ensina é que estas coisas podemos nos ocupar, ou seja, devemos trabalhar pelo emprego, pela casa, pela saúde, pelo alimento etc., etc. Não, porém, deixando que o futuro, o dia de amanhã, ocupe HOJE a nossa mente, a nossa atenção e desvie o nosso olhar do que devemos fazer HOJE.

Os desejos são, ao mesmo tempo, motivadores do progresso e elemento de destruição - neste caso quando invejamos, comparamos, depreciamos, cobiçamos, destruímos e nos tornamos infelizes.

Ao controlarmos nossos desejos - agradecendo pelo que temos, sem invejar ou cobiçar - podemos desfrutar dos bens, das amizades, dos nossos progressos.

Relacionando este Evangelho com o que o Catecismo nos ensina, tiramos que nós, como instrumentos da Providência Divina, devemos realizar todo o bem possível nas realidades próprias que vivemos - trabalho, família, sociedade, Estado - em vistas do aperfeiçoamento da obra de Deus e é desta forma que nos virá nosso sustento. Vivemos, assim, abandonados nas mãos de nosso Pai que é Todo-Poderoso e entregamos a Ele a condução de nossas vidas e de nosso futuro. Não podemos determinar nosso futuro, não é mesmo? Não conseguimos adicionar um só dia a nossa existência e nem transformar as coisas que não estão ao nosso alcance somente por nós mesmos.

Abandonar-se à Providência

E é justamente neste tempo que vivemos na liturgia - a Quaresma - que tiramos outra lição essencial para compreendermos a Providência.

Ouvimos no Evangelho da Quarta-feira de Cinzas o convite para JEJUAR, ORAR e DAR ESMOLA.

Três ações que irão nos ajudar neste tempo forte da Igreja.

E o que elas podem nos ensinar em relação à Providência?

O Jejum nos faz perceber os limites de nosso corpo e nos ensina a controlarmos nossos desejos. Ele pode nos ajudar a valorizar as pequenas coisas, a nos voltarmos para o que é essencial.

A Oração nos coloca em contato com o Senhor, com aquele nos que nos criou. Aprendemos que não estamos por cima de tudo e todos - há Alguém que nos ultrapassa e, diante dele, nos colocamos em nosso devido lugar!

A Esmola nos faz ver que temos irmãos ao nosso redor - eles precisam de nós, assim como nós precisamos deles. Somos uma família - a Humanidade.

Tudo está relacionado com o tema da Providência Divina.

Tomo aqui a imagem de uma aranha em sua teia. Você já viu uma aranha na teia - é claro, né? Quando um inseto cai nesta teia, a aranha sente as vibrações da teia e vai em direção à presa para imobilizá-la. 

As nossas relações devem estar ligadas desta forma - deveríamos estar atentos às necessidades uns dos outros - especialmente àqueles que são próximos a nós - nossos familiares, vizinhos, amigos, companheiros. E cada necessidade geraria em nós uma ação de auxílio.

Finalmente...

Vivemos em um período de crise econômica, financeira, de valores etc. A Providência Divina nos coloca, uns aos outros, como instrumentos de sua ação. Podemos sim, nos ajudar financeiramente, indicar pessoas que conhecemos para vagas de emprego, avisar aos amigos sobre descontos de produtos, trocar mercadorias, dar e receber indicações, realizar mais visitas às pessoas que necessitam, apoiar os que estão desempregados (com incentivos, mas também com os produtos de necessidades básicas)...

Esta orientação está amparada no texto paralelo daquele que vimos acima (de Mateus) e se encontra no Evangelho de Lucas, capítulo 6, versículo 38:

dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.

E atenção! Não é uma "comprovação" da teologia da prosperidade. Ao invés, Jesus neste sermão (que é chamado de "Sermão da Planície"), mostra o segredo da vida em sociedade (é claro, entre outras coisas...) que é o cuidado com o outro, o apoio nas necessidades dos irmãos, daqueles que são próximos. Como uma vez ouvi de uma amigo - "Uma mão lava a outra e ambas lavam o rosto!" - Sabedoria popular que mostra a importância de estarmos todos ligados e nos importando com aquilo que quem está ao nosso lado vive.

São tantas as coisas que poderemos fazer em vista do bem do outro... E cada vez que o fizermos, estaremos no caminho do Evangelho e seremos agentes da Providência de Deus!

Boa semana a todos!!



Fica autorizada a reprodução integral deste post, desde que citada a fonte conforme texto a seguir:
RAUTMANN, Robert. Providência Divina, Quaresma, Aranhas e outras coisinhas... Disponível em: 
http://robertccj.blogspot.com.br/2017/03/providencia-divina-quaresma-aranhas-e.html



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